Don Corleone

Don Corleone

Uma releitura dos Cannoli, doce italiano imortalizado na trilogia “O Poderoso Chefão”, com massa de vinho Marsala, recheio de ricota e chocolate branco com raspas limão siciliano e coberto com chocolate belga 70% cacau e pistache.

Ingredientes – Massa: farinha de trigo, açúcar, chocolate em pó 70% cacau, sal, pimenta jamaica, manteiga, ovo, vinho Marsala e Grappa. Recheio: chocolate branco, creme de leite fresco, açúcar, ricota fresca e raspas de limão siciliano. Cobertura: chocolate belga Callenbault 70% cacau, pistache e pimenta jamaica.

Saiba mais…

Não por acaso os cannoli têm um papel de destaque na franquia O Poderoso Chefão (The Godfather). Assim como a máfia, esse tradicional doce italiano tem origens na Sicília. Dessa região do sul da Itália saíram os migrantes que difundiram os cannoli e a máfia pelo mundo, especialmente nos Estados Unidos, a partir do final do século 19.

Mas os cannoli são muito mais antigos, é sobre eles provavelmente o primeiro registro sobre confeitaria. Ao advogado, político e filósofo romano Marco Túlio Cícero, questor (cargo de início na magistratura da Roma Antiga) na Sicília em 75 a.C., é creditada a citação: “tubus farinarius, dulcissimo, edulio ex lacte factus”, ou seja, “tubos de massa de farinha, muito doces, recheado com creme de leite”. Pelo formato, os cannoli eram historicamente feitos durante as festividades de carnaval, como um símbolo de fertilidade.

Para a família mafiosa Corleone, no entanto, eles tinham outro significado. No primeiro episódio da trilogia, o caporegime (terceiro na ordem de comando) Peter Clemenza é designado por Don Vito Corleone (o chefe da família, ou padrinho) para matar o traidor Paulie Gatto. Assim que a vingança é consumada, Clemenza orienta o assassino com uma das frases mais famosas do cinema: “leave the gun, take the cannoli”, ou seja, “deixe a arma, pegue os cannoli” – os doces eram um pedido de sua esposa. Já no terceiro episódio, Connie Corleone usa cannoli envenenados para eliminar Don Altobello, chefe da família Tattaglia, também por causa de uma traição.

Cannolo (no singular), que significa “pequeno tubo” em italiano, é uma sobremesa de massa doce frita em formato de tubo, recheada com creme de queijo ricota ou mascarpone, e que costuma levar baunilha, chocolate, pistache, frutas cristalizadas, vinho Marsala e limão siciliano em seu preparo. Mas cada família italiana tem sua receita, assim como os migrantes precisaram adaptar as suas aos ingredientes disponíveis em suas novas terras.

O Ora Bolas Food Lab procura manter uma proximidade com os ingredientes originais. A massa leva cacau, vinho Marsala e Grappa; o recheio tem uma base de ricota, chocolate branco e limão siciliano; e ganha uma cobertura de chocolate meio amargo e pistache. Mas, é claro, deixa de ser um pequeno tubo e é transformado em uma bolinha. Por isso foi rebatizado de Don Corleone.

Portanto, depois de um bom happy hour com bolinhos salgados e bebidas, deixem os copos e peguem os cannoli, ora bolas!

Fontes: Wikipédia; ANSA Brasil; ricette.giallozafferano.it; godfather.wikia.com; Kostioukovitch, Elena. Why Italians Love to Talk About Food. Google Books

Retornar ao Cardápio

Babette

Babette

Para presentear todos os sentidos: trouxinhas de carne de codorna desfiada e refogada em azeite trufado com delicado creme de champignon e pedaços do cogumelo fresco. Acompanha molho de codorna. Receita inspirada no filme “A Festa de Babette”.

Ingredientes: codornas, bacon, champignon paris fresco, vinho madeira, vinho branco, azeite trufado, creme de leite fresco, cebola, alho, alho-poró, cenoura, salsão, tomilho, louro, sal, pimenta do reino, gelatina incolor em folha, massa de pastel caseira (farinha, ovo, cachaça, óleo, manteiga, fermento químico, água e sal).

Saiba mais…

A comida em sua total potencialidade: aguçar todos os sentidos, incentivar o toque; tornar as cores mais brilhantes; trazer de volta aromas e pessoas do passado; tornar as vozes mais amigáveis, suaves; estimular todos os receptores de sabor – trazer, enfim, risadas, felicidade. No filme A Festa de Babette, lançado em 1987 (há exatos 30 anos), assistimos a uma comunidade dinamarquesa fria e rígida do século XIX despertar para o mundo dos prazeres através da comida.

O banquete oferecido por Babette, a personagem, – para celebrar o aniversário de morte do pastor e pai de suas anfitriãs na cidade – vai, aos poucos, retirando a sisudez e o puritanismo dos habitantes, aproximando-os. Em uma série memorável de planos-sequência, a fotografia do filme acompanha essa mudança, tornando-se mais colorida, clara, com uma movimentação de câmera mais livre. Na história, todos cumprem o trato feito antes do jantar: ninguém menciona a comida. Nem precisa. O prazer a cada garfada e a riqueza de sensações que cada prato proporciona ficam muito visíveis nos gestos, feições e movimentos de cada um dos convidados. Enquanto isso, o general, que nada sabia do combinado e é um conhecedor da cuisine francesa, mostra em palavras para nós, expectadores, o que eles estão sentindo.

A Festa de Babette/Divulgação

Cena do filme onde a expressão dos convidados já está alterada pela comida

A primeira vez que fiz Babette, o bolinho, experimentei já na primeira das várias etapas de cozimento um lampejo dessa sensação. O aroma desprendido pelo caldo de codorna com vinho madeira – que serve de base para todo o prato – trouxe uma aparentemente despropositada (inexplicável mesmo) sensação de alegria. E assim foi indo: o caldo misturado à carne, o bacon e o azeite trufado (saiba mais sobre esse ingrediente aqui); depois ao creme  de champignon fresco…

A Festa de Babette

As codornas com creme de champignon e trufas negras

No filme, a codorna (nesse caso inteira) com creme de cogumelos e trufas negras abre a série de pratos principais daquele banquete – retirado diretamente da nobreza francesa para abrir os horizontes de uma comunidade parada no tempo. É nesse momento que percebemos que os convidados já estão inevitavelmente presos aos inúmeros prazeres proporcionados pela comida de Babette.

A Festa de Babette/Divulgação

Babette na cozinha

O nosso bolinho foi inspirado nesse prato simbólico de um filme que usa dos meios cinematográficos com maestria para retratar um processo de total entrega aos prazeres (pecados?) da vida – nesse caso, através da comida. Com humildade, acreditamos que ele consegue despertar, um pouco que seja, essa sensação tão boa.

PS: Para quem mora em Florianópolis: o filme está disponível no acervo da vídeo locadora do Paradigma Cine Art, na SC-401. Se ainda não tiver assistido, vale a pena!

Retornar ao Cardápio