Sophia Loren (Polpette al Ragù)

As almôndegas italianas clássicas com ragu napolitano, saboroso molho de carnes com tomates cozido por mais de 10 horas em panela de barro

As almôndegas italianas clássicas com ragu napolitano, saboroso molho de carnes com tomates cozido por mais de 10 horas em panela de barro

Ingredientes: almôndegas – carnes bovina e suína, toucinho, presunto cru, salsinha, orégano, pimenta vermelha, pimenta do reino, farinha de rosca, ovos, ricota fresca, leite, azeite de oliva e sal; ragu napolitano – pernil de porco, costela de porco, salame napolitano, cebola, cenoura, massa de tomates caseira (tomates, sal, açúcar e azeite), vinhos branco e tinto, manteiga, azeite de oliva, louro, sal e pimenta do reino

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Em um sábado qualquer, na sua cidade natal – Pozzuoli, nos arredores de Nápoles, na Itália – Sophia Loren entra num açougue de bairro à procura de carnes para o tradicional ragu. Logo começa um bate-boca típico napolitano: as outras freguesas querem dar palpites sobre a escolha dos ingredientes, o que Sophia Loren, uma dona de casa apaixonada por comida, não aceita.

Sábado, Domingo e Segunda

Cena do filme Sábado, Domingo e Segunda, onde Sophia Loren discute num açougue sobre os melhores ingredientes para o ragu (Reprodução)

A cena, retirada do filme Sábado, Domingo e Segunda, da diretora Lina Wertmüller (primeira mulher da história a ser indicada ao Oscar de melhor direção, pelo filme Pasqualino Sete Belezas, de 1975), é corriqueira há 300 anos em Nápoles e arredores. Aos domingos, quem já passeou pelas ruas da região, com certeza já sentiu no ar o aroma do ragù napoletano, um verdadeiro orgulho nacional. E a manhã de sábado é o último prazo para comprar os ingredientes frescos, já que o molho leva no mínimo 10 horas para ser preparado.

Como indicado no filme, a disputa pela melhor receita leva a discussões acaloradas, mas é consenso que o molho deve levar muitas carnes, MUITOS tomates, cebolas e temperos e ficar muitas horas no fogo, tomando, ao final do preparo, uma consistência densa e coloração escura como sangue. Agora, qual tipo de carne e de vinho, por exemplo, cada um tem o seu – e que ninguém ouse dizer que é errado! Hoje em dia os chefs não costumam levar mais de quatro horas no preparo do molho, o que para quem traz a tradição da família é uma verdadeira ofensa. Ragu é somente aquele que fica um dia ou uma noite inteira no fogo, o resto é carne com molho de tomate.

O escritor napolitano Giuseppe Marotta escreveu em seu conto Il ragù, de 1949:

“o ragù não se cozinha, se consegue, não é um molho, mas a história e o romance e o poema de um molho (…) esse molho trabalhosíssimo empenha quem o prepara como um quadro empenha o pintor. Em nenhuma fase de seu cozimento o ragù deve ser abandonado sozinho; como uma música interrompida e retomada não é mais uma música, assim um ragù negligenciado deixa de ser ragù e perde qualquer possibilidade de tornar-se um (…) O ragù não ferve, pensa; é necessário apenas remover com a colher os seus pensamentos mais profundos, e ter cuidado de que o fogo seja baixo, baixo. Nada induz à reflexão como cuidar de um insigne ragù. Trata-se, repito, de um trabalho longo e difícil, que se executa sonhando. A colher de pau remove na panela com o molho incomparável, tempo e dor.”

Ao final do filme, o ragu é degustado de verdade pelos atores, que têm uma reação que provoca fome mesmo em espectadores que acabaram de sair da mesa. É o retrato fiel do prazer causado por uma boa comida. Assim como no conto napolitano, o ragu passa de um elemento acessório ao papel de protagonista da história. E assim também acontece com o nosso Polpette al Ragù, onde o molho é a verdadeira estrela, e não o bolinho.

Fontes:

Bona, Fabiano Dalla. Ragù: A Imortalização Literária De Um Clássico Da Cozinha Napolitana. UFRJ. (http://www.letras.ufrj.br/neolatinas/media/publicacoes)
Edwald Filho, Rubens. O Cinema Vai À Mesa: histórias e receitas. São Paulo: Editora Melhoramentos, 2007.
Seed, Diane. Os 100 Melhores Molhos Para Massas: receita original autêntica da Itália. São Paulo: Martins Fontes, 1994.
Wikipedia

Brejo

Brejo

Nossa versão em bolinhas da Vaca Atolada, prato típico caipira com costela bovina e mandioca

Ingredientes: costela bovina, mandioca, cebola, tomate, alho, limão, salsinha, pimenta malagueta, pimenta do reino, farinha de rosca, óleo de girassol, ovo e sal.

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Típico prato da culinária caipira, a Vaca Atolada deixa claro o porquê de seu nome à primeira vista: suculentos pedaços de costela bovina, com a carne descolando do osso, “atolados” em um molho espesso devido à mandioca que se dissolve em parte durante o preparo.

Vaca Atolada

A Vaca Atolada no início de seu preparo: costela bovina, mandioca e muito tempero

Mas há quem aponte outras origens para o prato. Ele teria sido criado por tropeiros que faziam o transporte de animais e mercadorias entre o Vale do Paraíba (região entre as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro) e Minas Gerais. Nas épocas de chuva, os caminhos pela Serra da Mantiqueira viravam lamaçais e era comum o gado atolar, sendo necessário algumas vezes sacrificar algum animal. Uma das partes que não podia ser conservada na gordura ou no sal, as costelas eram então cozidas com mandiocas colhidas na região. Outra versão, menos romanceada, é de que o prato era feito para aproveitar a carne de uma vaca que atolava em um brejo e não resistia.

O Brejo surgiu da proposta do Ora Bolas Food Lab de resumir em bolinhas comidas típicas do Brasil e de outros países. Primeiro é preparada a Vaca Atolada, um processo que leva de quatro a cinco horas: duas para o tempero da carne, mais duas a três para a cocção de todos os ingredientes, em panela de barro. Depois, a carne é separada e desfiada, e novamente refogada, para rechear bolinhas feitas com a mandioca e molho do prato, uma a uma. Então os bolinhos são empanados e fritos. Assim a Vaca Atolada vai para o brejo, ora bolas!

Fonte: Wikipedia; Revista Safra

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Sopa de Dragão

Picante sopa de legumes chinesa com almôndegas de carne suína carregada no gengibre

Picante sopa de legumes chinesa com almôndegas de carne suína carregada no gengibre

Ingredientes: pernil de porco, gengibre, cebolinha, shoyu, óleo de gergelim, caldo de frango, anis-estrelado, alho, acelga e coentro.

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Já falamos aqui o quanto a culinária chinesa é variada e baseada em conceitos milenares. Nesse rol de diferentes estilos e receitas (estima-se que existam mais de 5 mil pratos típicos), as sopas ocupam uma importante posição no cardápio e na história. Há, inclusive, um provérbio que diz: “uma refeição perfeita pode não incluir pratos de carne, mas a sopa não deve faltar”. As sopas fazem parte do dia a dia do povo desde o período da dinastia Song, que governou a China de meados de 960 a 1279. Antes disso, entre os séculos 6 e 10, diferentes tipos de sopa surgiram na culinária imperial das dinastias Sui e Tang.

Se a importância da presença da sopa na mesa é consenso entre os chineses, a hora de tomá-la varia conforme a região desse país continental. No sul, é hábito iniciar a refeição por ela para aumentar o apetite. No norte, costuma-se encerrar a refeição com uma sopa para ajudar na digestão. Já em um banquete tradicional, a sopa é o segundo prato, sucedendo a mesa de aperitivos e antecedendo o prato principal – essa ordem ajudaria a limpar o paladar.

Há preferências também quanto aos tipos de sopa, que costumam ser divididos conforme os ingredientes – caldo de carne, de peixe, de ovo e de legumes; os sabores – salgada, agripicante e doce; e a consistência – caldos ralos e sopas espessas. Os habitantes da região sul preferem caldos mais ralos e sopas de sabor leve. Já os moradores do norte têm preferência por sabores mais salgados. Na província de Guangdong, no sul do país, é comum a adição de ervas medicinais.

ginger-1714196_1920A relação entre culinária e medicina na China, aliás, é intrínseca. Diz-se que não se deve recorrer a remédios sem antes buscar a cura através de uma dieta. Por isso a escolha e combinação de ingredientes, assim como a forma de preparo, é muito importante. O gengibre, por exemplo, é um condimento muito comum na gastronomia chinesa, especialmente fresco. Para a medicina tradicional chinesa, é um importante elemento para expectoração e tratamento de tosse, gripe, resfriados e catarro; enjoo matinal, náuseas, vômitos, indigestão, flatulência e diarreia; hemorragias; dores e espasmos; além de melhorar a circulação sanguínea. É classificado como picante e quente, com propriedades de aquecer e libertar o exterior.

A Sopa de Dragão, baseada em uma receita do chef John Gregory-Smith, tem como uma de suas características marcantes o sabor do gengibre, presente tanto no caldo quanto nas almôndegas de carne de porco. Também muito comuns na gastronomia e medicina chinesa, anis-estrelado e coentro conferem aroma e sabor ao prato, além de suas propriedades: o primeiro é expectorante e digestivo, e combate gases, cólicas intestinais e diarreias; o segundo é indicado para dor de estômago, náuseas, hérnia, disenteria, hemorroidas, falta de apetite, dispepsia, náuseas e flatulência, e como tônico e afrodisíaco. Há ainda o alho, que ajuda a eliminar o frio, neutralizar toxinas e dissolver estagnações. Com tantos benefícios, a Sopa de Dragão é uma opção leve, nutritiva e funcional para alimentar o corpo e a alma nos dias frios.

Fontes: CRI online; Portal São Francisco; Revista Macau; Escola de Medicina Tradicional Chinesa; Cuesta Sabores; Dicas de Saúde; Acupunturista.net; Epoch Times; Wikipedia

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Shurba

Shurba

Receita tradicional do Marrocos com leves bolinhas de codorna e claras em neve em caldo aromático com legumes e macarrão bifum (sem glúten)

Ingredientes – Bolinhos: peito de codorna e clara de ovo. Sopa: cebola, alho-poró, cenoura, aipo, salsinha, coentro, louro, tomilho, alho, urucum, sal, pimenta do reino e bifum (macarrão de arroz).

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A gastronomia de Marrocos (leia mais aqui) tem uma rica variedade de sopas, das mais substanciosas – caso da Harira, tradicional na época do Ramadã – às mais leves, como a simples Tadaffi (caldo de sêmola) e a requintada Shurba de pombo e legumes. Esta última, considerada um prato de luxo, foi a escolhida pelo Ora Bolas Food Lab como exemplo do refinamento da culinária marroquina.

A carne de pombo foi substituída por carne de codorna para moldar delicadas almôndegas. Das carcaças, é preparado um saboroso e perfumado caldo, ao qual também são acrescentados legumes como cenoura, alho-poró e aipo, e massa de fios finos. Tradicionalmente é utilizada a aletria (cabelo-de-anjo), mas o Ora Bolas Food Lab optou pelo bifum, massa finíssima feita de farinha de arroz, que não contém glúten, para finalizar a Shurba.

Fontes: Medina, Ignacio. Cozinha país a país – Marrocos. Editora Moderna; Wikipedia; Marrocos.com

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Tropeiro

Tropeiro

Uma homenagem aos dois pratos típicos da safra de pinhão na serra catarinense que são herança do tempo dos tropeiros: a paçoca de pinhão e o entrevero. Acompanha molho picante de tomate com especiarias (Boi de Botas).

Ingredientes: frescal de carne bovina, linguiça campeira, pinhão, bacon, cebola roxa e branca, pimentão cambuci, tomate, páprica picante, pimenta vermelha, pimenta do reino, cenoura e manjerona.

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Nosso bolinho Tropeiro une elementos essenciais da história de minha terra natal, Lages, cidade localizada no planalto serrano catarinense. A base é o pinhão, semente da araucária, presente na cobertura e no recheio; a carne principal é o frescal, tipo de cura ao sereno; e os tropeiros conseguiram, além de juntar tudo isso, dar origem à cidade onde nasci e a muitas outras por onde passaram.

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Índios Kaigang. Foto: Acervo do Museu Histórico e Antropológico da Região do Contestado

O pinhão era um importante item da dieta do povo Kaingang, habitantes originários da região, praticamente dizimados por expedições de conquista promovidas pela Coroa Portuguesa e depois pelo governo imperial do Brasil – hoje, pouquíssimos resistem à grilagem. Eles coletavam a semente entre março e maio nas vastíssimas florestas de araucárias da época, e a consumiam assada diretamente na fogueira (sapecada). Para conservar essa importante fonte de nutrientes para os meses rigorosos de inverno, eles criaram diversas formas de conservação, como a farinha de pinhão e o õkór (pinhões colocados num cesto com tampa amarrado a um cipó dentro de um poço de rio), além de produzirem uma bebida fermentada.

Já o tropeirismo, importante ciclo econômico brasileiro que se inicia no século 17 e tem seu apogeu nos séculos 18 e 19, é intrínseco ao povoamento da Serra Geral. Várias cidades do interior do Rio Grande do Sul a São Paulo surgiram da movimentação de tropas de gado, cavalos e mulas que levavam charque, couro e outras mercadorias para o Sudeste, onde se desenvolvia fortemente a mineração, pelos chamados “Caminhos de Cima da Serra”.

Os Caminhos de Cima da Serra são um conjunto de rotas, muitas com traçados paralelos ou que se interligavam, abertas em busca de atalhos e como forma de escapar dos registros oficiais, que cobravam impostos pelo trânsito de animais e mercadorias. Ao longo desses percursos, nos pontos de pouso, foram nascendo pequenas povoações para atender às necessidades dos tropeiros, que por vezes precisavam esperar dias para que as chuvas cessassem e o nível dos rios permitisse a passagem da tropa. É o caso de Lages, fundada em 1766.

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Muros de taipas, erguidos por escravos, delimitavam as propriedades e o caminho dos tropeiros. Foto retirada do livro Uma Usina no Contestado

Logo começaram a se formar pontos de invernada (pastagens destinadas ao descanso e à engorda de animais), e sesmarias passaram a ser concedidas, dando origem a extensas fazendas de criação de gado e cultivo de agricultura de subsistência. Elas eram também abrigo para os tropeiros e seus animais durante a travessia dos campos, em muitas partes por caminhos delineados por taipas (muros feitos com pedras). Ali descansavam e faziam negócios, e consequentemente ocorriam trocas culturais, inclusive em relação a hábitos alimentares.

Nessa interação, o pinhão passou a ser um importante alimento para caboclos (designação regional para a miscigenação de descendentes de portugueses e espanhóis, africanos e indígenas) e também para os tropeiros. Estes contribuíram para a culinária local com pratos de preparo fácil e rápido, entre eles o charque assado na brasa. Nas paradas mais longas, às vezes era carneada uma rês, e entre as partes que não eram utilizadas no churrasco algumas eram curadas à noite (e diz-se que embrulhadas em mantas e colocadas sob a barriga dos cavalos para que o suor dos animais salgasse a carne) para serem utilizadas nos dias seguintes. Este método de preservação foi adotado pelos fazendeiros – mas com a utilização de sal para a salga – e nos últimos anos vem sendo resgatado inclusive por grandes frigoríficos.

Pratos substanciosos e simples, porém saborosos, surgiram desses compartilhamentos, e hoje são ícones da gastronomia da Serra Geral catarinense. Um deles é a paçoca de pinhão, uma mistura da semente e de carnes moída (originalmente pilada) e refogada na cebola. Outro é o entrevero, que como o nome diz é uma verdadeira mistura de carne, linguiça, pinhão e vegetais grelhados em chapa de ferro.

Tropeiro

Tropeiro com vinho: perfeito para as noites frias  de outono

O Ora Bolas Food Lab apareceu e resolveu aumentar essa mistura, concentrando-a em um único bolinho, o Tropeiro. Uma paçoca preparada com frescal e pinhão formam a sua cobertura, e no recheio os principais ingredientes do entrevero. Como toque final, um molho grosso e picante à base de tomate e pimentão, batizado de Boi de Botas (termo que designa os lageanos que combateram ao lado dos Farrapos na tomada de Laguna, em 1839, por sua força e bravura). Esta é uma ótima opção para as noites frias de outono e inverno, e harmoniza muito bem com vinhos tintos produzidos nas vinícolas das terras altas de Santa Catarina.

Fontes:

Vanin, Alexsandro e outros. Uma Usina no Contestado. Fábrica de Comunicação, Santa Catarina, 2006.
Recco, Claudio. O Tropeirismo no Brasil – A Atividade dos Tropeiros no Brasil. Site historianet.com.br.
Wikipedia; www.portalkaingang.org; http://www.frigorificoelgolli.com.br; www.portallageano.com.br

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Dia das Bruxas

Um resumo do saboroso camarão na moranga, prato que teve origem no litoral paulistano e se difundiu e se recriou por todo o país.

Ingredientes: abóbora, alho, cebola, tomate, coentro e limão orgânicos; camarão, catupiry, leite de coco, azeite de dendê, azeite de oliva, mateiga, farinha de trigo, farinha de rosca e ovo caipira.

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Roda Baiana

Roda Baiana

Um resumo de um dos mais tradicionais pratos da culinária baiana: a moqueca. Acompanha molho de Feijão de Leite Picante

Ingredientes: peixe, azeite de dendê, leite de coco, cebola, tomate, pimentão, coentro, salsinha, pimenta vermelha, farinha de mandioca, polvilho azedo, sal e limão.

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Neste verão, um divertido “duelo” culinário marcou as redes sociais: qual é a verdadeira moqueca, a baiana ou a capixaba? A polêmica é antiga, mas um meme postado na página do governo do Espírito Santo no Facebook esquentou os ânimos: “Quis me ensinar a melhor receita de moqueca. Logo eu, Espírito Santo”. A prefeitura de Salvador, na Bahia, não deixou barato: “Moqueca sem dendê não é moqueca”. E de pronto veio a resposta: “Moqueca é capixaba, o resto é peixada”.

A base é a mesma: peixe, cebola, tomate, pimenta, coentro e uma ou outra variação de ervas e temperos. Mas a semelhança para por aí. A moqueca baiana é, talvez, a mais conhecida – além dos ingredientes citados, leva pimentão, leite de coco e azeite de dendê, formando um molho denso e condimentado. A moqueca capixaba tem um caldo mais ralo e leva bastante tomate, urucum e azeite doce ou de oliva – e está se popularizando por ser um prato mais leve e menos calórico.

Polêmicas à parte, a moqueca é um dos pratos que mais traduz a origem da culinária brasileira. Em especial a nossa “escolhida”, a baiana, que traz a mistura étnica e cultural que é embrionária em nosso país, entre indígenas, europeus e africanos.

O nome tem origem no termo tupi mokaen, ou “moquém”, que era um tipo de secador para tostar carne. As carnes, em especial a dos peixes, eram envolvidas em folhas ou ervas e colocadas sob a brasa para serem cozidas lentamente em seu próprio suco. Moquear, então, significa cozer lentamente na terra – efeito idêntico ao da panela de barro que, com o calor concentrado, termina de cozinhar a moqueca aos poucos, mesmo após ser retirada do fogo. O assado envolvido em folhas era chamado pokeka, que significa “embrulho”. E daí temos a moqueca.

Com os europeus vieram os temperos: entre eles o pimentão, a cebola e o tomate. O dendê é uma clara influência africana. O leite de coco ajuda a engrossar o caldo e acrescentar um outro sabor típico ao prato – o coqueiro se tornou praticamente uma árvore símbolo da Bahia.

No Ora Bolas, o Roda Baiana também tem um significado embrionário, como já explicamos aqui: foi um dos primeiros bolinhos criados na casa, de onde surgiu a ideia do nosso negócio. E também traduz um dos conceitos primordiais dos nossos bolinhos: resumir o sabor de um prato, uma região ou país em pequenas bolas, que possam ser saboreadas sem louças nem talheres, de forma descontraída, com amigos e familiares ao redor de uma mesa.

O acompanhamento perfeito

Já que a moqueca escolhida é da Bahia, o molho que acompanha o nosso Roda Baiana é o baianíssimo Feijão de Leite – que na nossa versão ganhou um toque apimentado. Uma mistura à primeira vista um pouco esdrúxula de feijão, leite de coco, açúcar e temperos, o molho faz um contraste bastante interessante com pratos que têm o peixe como ingrediente principal.

Na sua roda de amigos do próximo happy hour, junte Roda Baiana com Feijão de Leite Picante e samba de roda – ou a música que você preferir – e bote a baiana pra rodar!

Fontes: Fajans, Jane. Seria a moqueca apenas uma peixada?, Anthropology of food [Online], S6, December 2009;folhavitoria.com; ig.com.br; correio24horas.com.br; wikipedia; facebook.com/institutokaapor

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Samba

img_6816Um resumo da nossa tradicional feijoada: bolinhas de feijão com recheio de bacon crocante envolto em couve refogada. Acompanha molho de pimenta com feijão.
Sugestão: servir com laranja Bahia em pedaços.

Ingredientes – Massa: Feijão preto, paio, costelinha de porco, charque, cebola, alho, buquê garni (manjericão, salsinha, cebolinha, tomilho, sálvia, lavanda), pimentas do reino e jamaica, louro, bacon; farinha de mandioca, polvilho azedo. Recheio: bacon, couve mineira, cebola, azeite de oliva e sal.

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É bem provável que a grande maioria das pessoas tenha aprendido que a feijoada foi criada pelos escravos trazidos da África para o Brasil. Essa versão é inclusive difundida em livros, como “Brasil 1500-2000: 500 anos de sabor”, da jornalista Eda Romio: “… a grande paixão nacional, em matéria de sabor, começava a nascer nas cozinhas das senzalas… Feijão preto, restos de carne, farinha de mandioca, pimenta, laranja, até a bebida (cachaça)”. Mas não é bem assim. Como muita coisa no Brasil, é fruto de contribuições europeias, indígenas e africanas.

O termo feijoada pode ser empregado a vários pratos com feijão e carnes típicos de países europeus, especialmente aqueles de origem latina, que remontam aos tempos do Império Romano, segundo o etnógrafo e folclorista Luís da Câmara Cascudo, autor do livro “História da Alimentação no Brasil”. Em Portugal, na região norte, temos a feijoada à trasmontana e a feijoada poveira; na Espanha, o cozido madrilenho e a fabada asturiana; na França, o cassoulet; na Itália, a casoeula. Há ainda o fasole cu cârnaţi, um prato romeno com feijão e linguiça.

Essa tradição foi trazida ao Brasil pelos portugueses e, como costumeiramente acontece com receitas de colonizadores e imigrantes, precisou ser adaptada aos ingredientes disponíveis no local. Enquanto a feijoada poveira usa feijão-branco, e à trasmontana o vermelho, aqui encontrava-se com fartura o feijão-preto. Este tipo é originário da América do Sul e já fazia parte da dieta indígena, assim como a mandioca. Junto com a carne-seca e a farinha de mandioca, permitiu que bandeirantes e vaqueiros enfrentassem longas viagens pelo interior do país. A partir do século 18, facilitou a fixação dos colonos fora da área litorânea – mulheres cuidavam da cultura do feijão, enquanto homens se ocupavam com outras plantações e gado. Já no século 19, relatos de viajantes estrangeiros destacavam a importância do feijão-preto como alimento nacional.

As partes salgadas de porco, como pés, orelhas e rabos, também não eram consideradas restos pelos portugueses. Muito pelo contrário, eram iguarias muito apreciadas na Europa. E com a escassez de alimentos básicos na sociedade escravista no Brasil, devido à dedicação à monocultura e à mineração, os senhores de engenho nem mesmo poderiam se dar ao luxo de desperdiçar alimentos. A dieta básica dos escravos era basicamente farinha de mandioca ou de milho, preparada com água, às vezes um feijão de caldo ralo e muito ocasionalmente um pedaço de carne. Para evitar o escorbuto, laranjas colhidas do pé completavam as refeições.

Outro problema na tese de origem da feijoada nas senzalas diz respeito à combinação de alimentos. Africanos e indígenas não costumavam misturar feijão, carne e outros legumes. Muitos africanos também tinham origem ou forte influência muçulmana, cultura que proíbe o consumo de carne de porco. Só não resta dúvida sobre a contribuição da pimenta-malagueta e de outros temperos para a culinária brasileira, fruto da presença das escravas na cozinha da casa-grande.

Feijoada, Wikicommons

Feijoada com acompanhamentos: arroz, couve,, torresmo, laranja, farofa, pimenta.

O fato é que os primeiros registros históricos do prato referem-se a restaurantes frequentados pela elite escravocrata. Em 7 de agosto de 1833, no Diário de Pernambuco, o Hotel Théâtre, de Recife, informa que às quintas-feiras seria servida “feijoada à brasileira”. No Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, em 5 de janeiro de 1849, um anúncio intitulado “A bela feijoada à brasileira” informava que “na casa de pasto junto ao botequim da Fama do Café com Leite, tem-se determinado que haverá em todas as semanas, sendo às terças e quintas-feiras, a bela feijoada, a pedido de muitos
fregueses”. Um cronista da época, França Júnior, dizia que a feijoada não era o prato em si, mas o festim, a patuscada, na qual comiam todo aquele feijão!

De lá para cá, pouca coisa mudou. Há variações conforme a região, mas a base é a mesma. E a feijoada à brasileira, acompanhada de farofa de farinha de mandioca, arroz branco, couve refogada e laranja, ganhou notoriedade internacional e passou a ser considerada um prato típico do Brasil. Assim como o samba. E feijoada quase sempre é sinônimo de festa. Por isso resolvemos chamar nosso bolinho de feijoada de Samba. Tal qual o prato de origem, considerado por Câmara Cascudo um cardápio inteiro, nosso Samba traz em sua massa o feijão bem temperado, a farinha de mandioca e as carnes, e no recheio estão presentes a couve refogada com bacon – acompanhado, é claro, de um saboroso molho de pimenta. Providencie a laranja e a música, mais a bebida de seu gosto, chame os amigos e comemore o prazer de viver bem!

Fontes: Elias, Rodrigo. Feijoada: breve história de uma instituição comestível. Revista Sabores do Brasil, Ministério das Relações Exteriores; Machado, João Luís de Almeida. As origens da Feijoada: o mais brasileiro dos sabores. Portal Planeta Educação; Wikipedia

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