Mujadarah

Mujadarah

Bolinhas de arroz basmati e lentilha recheadas de cebola crocante; acompanha molho de iogurte e pepino

Ingredientes: lentilhas, arroz Basmati, cebola, farinha de trigo, sementes de coentro e cominho, azeite de oliva, cúrcuma, pimenta-da-jamaica, canela, açúcar, sal, pimenta do reino, ovo e farinha de rosca.

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Mujadarah, Mujaddara, majadra, mejadra, mijadra, moujadara, mudardara, megadarra. Esses são os muitos nomes de um dos mais populares e antigos pratos da culinária árabe: arroz com lentilhas, coberto com cebolas fritas. A primeira receita registrada é de 1226, no Kitab al-Tabikh, livro de receitas compilado por al-Baghdadi, no Iraque. Mas a mistura provavelmente é muito mais antiga – tanto a lentilha quanto o arroz começaram a ser cultivados por volta de 10.000 a.C. Em uma passagem do Velho Testamento, Esaú trocou seus direitos de primogênito com seu irmão gêmeo Jacó por um prato de lentilhas.

No Kitab al-Tabikh a Mujadarah é um prato para celebrações, feita com carne. Mas a versão vegetariana é uma refeição comum dos pobres desde a Idade Média, e ganhou grande popularidade no mundo árabe em meados do século passado devido a sucessivas guerras e migrações na região – além dos ingredientes não serem caros, são fáceis de transportar e conservar. Ainda hoje é um prato habitual, mas diz-se que a um convidado jamais é oferecido Mujadarah; isso seria uma ofensa. Já se o convidado pedir Mujadarah, é um sinal de humildade e confiança.

Conhecemos a Mujadarah no livro de receitas Jerusalém, de Yotam Ottolengui e Sami Tamimi, que a Graziela ganhou de presente da amiga Fernanda Albertoni em seu último aniversário. A descrição do prato e a fotografia nos conquistaram imediatamente. Passado um tempo, começamos as experiências para resumir todo o sabor e aroma da Mujadarah em uma bolinha, até que chegamos à versão final: bolinho empanado de arroz com lentilhas, bem condimentado, recheado de cebola crocante, e acompanhado de molho de iogurte.

Yotam e Sami sugerem que a Mujadarah seja servida morna, mas ressaltam que ela também é ótima em temperatura ambiente. Inclusive eles lembram de uma viagem para Jericó, quando a família de Sami levou um grande pote de Mujadarah para ser servida em um piquenique. Nosso teste derradeiro também ocorreu em um passeio. Após uma caminhada por trilha até a praia do Saquinho, no sul da Ilha de Santa Catarina, junto com Fernanda e Joseph Hughes provamos os bolinhos de Mujadarah em temperatura ambiente… e eles em nada deixaram a desejar em relação ao bolinho morno. E você, como prefere?

Fontes: Ottolenghi, Yottam e Tamimi, Sami. Jerusalém; tradução Eni Rodrigues – 1ª edição – São Paulo – 2012.; Demodelando; Wikipedia

Nina Hagen

Versão do Kartoffelpuffer mit Apfelmus, panquecas de batata com purê de maçã típicas alemãs

Versão do Kartoffelpuffer mit Apfelmus, panquecas de batata com purê de maçã típicas alemãs

Ingredientes: bolinho – batata, cebola, ovo, farinha de trigo, cebolinha, páprica picante, noz moscada e sal; purê: maçã, laranja, limão cravo, canela e açúcar.

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Esta é a nossa versão de Kartoffelpuffer mit Apfelmus, ou panqueca de batata com purê de maçã. Corriqueiro nos almoços e jantares na Alemanha, este prato assemelha-se ao rösti suíço e aos latkes judaicos. Mas por que o Ora Bolas Food Lab batizou sua versão de Nina Hagen, a cantora, compositora e atriz alemã, considerada uma das mães do punk rock?

Nina Hagen

Nina Hagen em 1981. Foto: Dirk Herbert/Wikicommons

Bem, primeiro porque alteramos a sua forma, que de achatada passou a arredondada. Segundo, porque introduzimos novos condimentos e temperos à receita para que os bolinhos tivessem um gosto final um pouco mais picante, mais condizente com a proposta de petisco para ser degustado com alguma bebida em um happy-hour.

Automobil (Nina Hagen)

É justamente por causa desta releitura do tradicional, da quebra das normas, que batizamos o nosso Kartoffelknödel de Nina Hagen, uma artista que confrontou os costumes de sua época. Nascida em 1955, na então Berlim Oriental, Nina começou a estudar balé com 4 anos e aos 9 já era considerada um prodígio do canto lírico. Entre 1972 e 1973, ela frequentou o The Central Studio for Light Music, em sua cidade natal, período em que cantou em uma banda cover – e incluiu em seu repertório canções de Janis Joplin e Tina Turner. No ano seguinte, formou a banda Automobil (foto), tornando-se uma das estrelas jovens mais conhecidas do país. A música mais famosa deste início de carreira é Du hast den Farbfilm vergessen (Você esqueceu o filme colorido), de autoria de seus parceiros de banda Michael Heubach (música) e Kurt Demmler (letras). A letra descreve uma jovem garota repreendendo seu namorado por ter esquecido o filme colorido para registrar suas férias, e é considerada uma sátira do estado comunista.

Nina Hagen

Foto: Jim Rakete/ Wikicommons

A grande transformação de Nina se deu após sua mudança para o lado ocidental, em 1976. Logo ela assinou com um selo da CBS, que recomendou a ela viajar pela Europa para se aclimatar à nova cultura. Nina chegou a Londres no auge do movimento punk rock, e rapidamente foi aceita num círculo que incluía The Slits e Sex Pistols. De volta à Alemanha em meados de 1977, Nina formou a banda Nina Hagen em Berlim Ocidental, e no ano seguinte lançaram seu álbum de estreia, Nina Hagen Band (foto). O álbum ganhou atenção significativa em toda a Alemanha e no exterior, tanto pelo seu som de hard rock quanto pelos vocais marcantes da cantora, líricos e teatrais, muito diferente de suas gravações do leste da Alemanha.

Enquanto isso, Nina estava progressivamente se transformando num alarde de mídia. Certa vez, em uma aparição em um talk show austríaco intitulado Club 2, em 9 de agosto de 1979, que abordava o tema da cultura juvenil, demonstrou – vestida, mas explicitamente – como uma mulher deve fazer para chegar ao orgasmo e se envolveu em uma discussão acalorada com outro convidado. No ano seguinte, após gravar o segundo álbum, Unbehagen, Nina larga a banda e se muda para os Estados Unidos, onde iniciou a carreira em inglês em 1982, com o lançamento do álbum NunSexMonkRock, uma mistura dissonante de punk, funk, reggae e ópera.

nina hagen no rock in rio

Rita Lee, Baby Consuelo, Nina Hagen e Pepeu Gomes no Rock in Rio em 1985

Em 1985, Nina se apresentou pela primeira vez no Brasil, durante o Rock in Rio. Fez diversos amigos por aqui, entre eles a também extravagante Baby do Brasil (na época Consuelo), que chegou a hospedar em sua casa a filha de Nina, Cosma Shiva – mais uma semelhança entre as duas artistas. Mas provavelmente quem mais se impressionou com a musa punk alemã foi Supla, na época líder da banda punk-new wave chamada Tokyo. Em sua homenagem, ele gravou a canção Garota de Berlim (forma pela qual os outros artistas se referiam a ela durante o Rock in Rio), um dos maiores hits da carreira do brasileiro. Em 1986, em uma nova turnê pelo Brasil, Nina contribuiu com vocais para um clipe da música.

Nina Hagen vive na Europa desde 1990, onde continua cantando – seu último disco é de 2011 – e trabalhando como dubladora em animações e também como atriz. Em 2002, fez uma nova participação em um clipe de Supla, em carreira solo, para a música Garota de Berlim, gravado na cidade alemã.

Ah, também porque Nina Hagen é vegetariana, assim como o bolinho!

Fontes: Wikipedia; Deutsche Welle; Jornal Extra.

Bhajis

Bhajis

Bolinho picante de vegetais com especiarias típico indiano (Vegano)

Ingredientes: cenoura, gengibre, cebola roxa, pimenta vermelha, coentro, mostarda em grãos, açafrão da terra, semente de cominho, sal, farinha de trigo, azeite e batata

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Bhajis, também conhecidos como pakoras, dependendo da região, são bolinhos picantes muito comuns por toda a Índia e também no Paquistão, Bangladesh e Nepal. Em geral, são feitos de um vegetal ou de uma mistura de vegetais (“pakora” significa isso em alguns lugares, assim como “bhaji” é um sufixo para frito por imersão), mas há variações com queijo paneer e, menos comuns, carnes de peixe ou frango.

Nos casamento indianos, é comum oferecer bhajis e chai aos convidados que chegam à cerimônia. Para o povo de Maharashtra, Andhra Pradesh e Tamil Nadu, os bhajis são praticamente obrigatórios nas comemorações de festivais tradicionais. É também considerado um elemento de conforto durante a época das chuvas de monções, quando é servido com uma xícara quente de café ou chá.

Vendedoras de bhajis nas ruas de Chennai, capital de Tamil Nadu. Foto de Nagesh Jayaraman/Wikicommons

Vendedoras de bhajis nas ruas de Chennai, capital de Tamil Nadu. Foto de Nagesh Jayaraman/Wikicommons

Crocantes por fora e macios por dentro, são servidos como entrada ou lanche, às vezes acompanhados de chutneys e raitas. São muito populares nas barracas de rua nos estados de Maharashtra, Andhra Pradesh, Karnataka e Bengala Ocidental. Fora do subcontinente indiano, são presentes na culinária do sul da África, do Afeganistão, da China e também da Grã-Bretanha, onde é encontrado facilmente nos restaurantes indianos e paquistaneses.

Aliás, foi um amigo inglês, Joe Hughes, que nos apresentou o bhaji. Junto com samosas, foi a entrada de um curry de frango. Uma refeição inglesa tipicamente indiana, ou vice-versa! Segundo ele, o crescimento dos restaurantes indianos, aliado ao surgimento de uma nova geração de chefs, como Jamie Oliver, influenciou profundamente a gastronomia da Grã-Bretanha. Até mesmo o ex-secretário britânico de Relações Exteriores Robin Cook reconheceu, em uma palestra no início dos anos 2000, que o prato nacional britânico, símbolo do Reino Unido, o Chicken Tikka Masala, tem origens na gastronomia da ex-colônia inglesa. Cook explicou que o prato é uma ilustração perfeita da forma como a Grã-Bretanha absorve e adapta influências externas: Chicken tikka é um prato indiano, mas o molho Masala foi adicionado para satisfazer o desejo que os britânicos têm por comer carne servida com molho.

Uma mistura de culturas que tanto agrada o Ora Bolas Food Lab. Por isso, adotamos a receita apresentada pelo Joe, retirada de um livro de Jamie Oliver, com algumas pequenas variações. Uma delas, é claro, tentar chegar ao formato de uma bola. Experimente puro, ou acompanhado de fatias de limão, com a bebida de sua preferência.

Fontes: Wikipedia; Monstro na cozinha; 360 Meridianos

Palla Gialla

Palla Gialla

Bolinho de risoto de açafrão recheado com uma bola inteira de mussarela de búfala

Ingredientes: arroz carnaroli; pistilos de açafrão; mussarela de búfala; queijo parmesão; vinho branco; caldo caseiro de legumes; manteiga; azeite de oliva; cebola; sal; pimenta do reino; salsinha; noz moscada; farinha de trigo; farinha panko.

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Na Itália, principalmente na Sicília, uma tradicional e popular comida de rua é o arancino (arancini, no plural), uma bolinha de risoto recheada e empanada. O nome deve-se à sua semelhança com a laranja (arancia, em italiano), tanto pela cor quanto pela forma, só que menor do que a fruta.

Arancini em Palermo

Os arancini são uma das principais comidas de rua de Palermo, na Sicíclia

A origem dos arancini remonta ao século 10, época da ocupação sarracena na ilha. Os árabes costumavam servir em seus banquetes uma bandeja de arroz aromatizado com açafrão guarnecida com legumes e carnes – foram eles, inclusive, que introduziram o açafrão, a pimenta, a noz-moscada e a laranja na região, entre outras especiarias e vegetais.

Mas foi cerca de dois séculos depois que eles ganharam a forma e a crocância características. Diz-se que o prato agradava tanto Frederico II, rei da Sicília (entre tantos outros títulos), que ele desejava levar a iguaria para suas viagens e caçadas. A solução encontrada foi empanar e fritar pequenas bolas dessa mistura, o que ajudou a conservar o arroz e seus temperos por mais tempo, além de facilitar o seu transporte. A portabilidade logo conquistou quem trabalhava no campo, e centenas e centenas de anos depois as ruas de toda a Itália.

Os arancini são, portanto, em sua essência, predecessores do Ora Bolas Food Lab: práticos e saborosos, feitos para serem comidos com as mãos. Para introduzi-los em nosso cardápio, escolhemos uma refinada versão com risotto alla milanese (com açafrão, como é típico em Palermo, cidade que disputa com a Catânia a origem da receita siciliana), o que lhe confere uma coloração amarela. Para o recheio, uma deliciosa mussarela de búfala, que escorre pelas bordas após a primeira mordida. Andiamo mangiare la Palla Gialla e buon appetito miei amici!

Thai

Thai Balls

Bolinhos de linguiça com ervas e especiarias típicas da Tailândia. Acompanha molho caseiro de pimenta doce

Ingredientes: bolinho – linguiça de pernil, gengibre, capim limão, pimenta vermelha, alho, pimenta do reino, manjericão, molho de peixe; molho – pimenta dedo de moça, gengibre, alho, vinagre de arroz, açúcar.

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Acho que uma das melhoras formas de se conhecer uma cidade é caminhar por suas ruas – pedalar também é uma boa opção. A velocidade de um carro ou de um ônibus não permite observar detalhes que somente uma caminhada tranquila e sem compromisso pode revelar. Livres do “conforto” do ar-condicionado dos veículos, aromas não passarão despercebidos, fisgando-nos para novos sabores, novas sensações.

Essa nova experiência pode estar ali mesmo, na rua. Livre-se de preconceitos e prove o que o povo local come. Não vá apenas aos endereços da moda, frequentados principalmente por turistas, arrisque-se em estabelecimentos tradicionais, ouse provar a comida das barraquinhas de feiras e ruas. Certamente você terá uma história única para contar, e ainda poderá se surpreender.

https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=35792509

Mercado flutuante na Tailândia. Foto: Georgie Pauwels, Wikicommons

Na Tailândia, por exemplo, comida de rua é uma verdadeira instituição cultural, repleta de receitas de família e pratos típicos. A capital, Bangkok, é considerada uma das melhores cidades do mundo para se provar comida de rua, tanto pela variedade quanto pela qualidade (observe as barracas mais procuradas) e também pela abundância de vendedores, presentes inclusive em canoas nos mercados flutuantes.

https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=26331657

Vendedores de rua. Foto: wikicommons

https://commons.wikimedia.org/w/index.php?curid=1481598

Petiscos de insetos. Foto: wikicommons

Uma das principais características da culinária tailandesa, a combinação dos cinco sentidos fundamentais do gosto (azedo, doce, salgado, amargo e picante) não é exclusividade dos chefs de restaurantes renomados. A céu aberto, pratos são preparados com ingredientes muito aromáticos e picantes na frente dos fregueses que, à noite, quando as temperaturas são mais agradáveis, costumam se sentar em mesas comunitárias. Difícil resistir ao aroma exalado pelas ervas, raízes, folhas, sementes e outros condimentos utilizados, como coentro, alho, folhas de limão kafir, talos de capim limão, nam pla (molho de peixe), leite de coco, galanga (raiz da família do gengibre) e, claro, pimentas.

Nosso bolinho Thai é inspirado em hambúrgueres de porco costumeiramente servidos nas ruas das cidades tailandesas. No seu preparo não falta alho, gengibre, pimentas, capim limão e molho de peixe tradicionais, aos quais adicionamos manjericão. Fica ainda mais gostoso com algumas gotas de limão e uma boa dose de molho de pimenta doce, típico da Tailândia – mas feito pelo próprio Ora Bolas Food Lab. Entregue-se a esta experiência e descubra que sentidos Thai pode despertar.

Fontes: Wikipedia; www.viajenaviagem.com; www.destemperados.com.br; www.fourseasons.com; www.foodmagazine.com.br

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Brejo

Brejo

Nossa versão em bolinhas da Vaca Atolada, prato típico caipira com costela bovina e mandioca

Ingredientes: costela bovina, mandioca, cebola, tomate, alho, limão, salsinha, pimenta malagueta, pimenta do reino, farinha de rosca, óleo de girassol, ovo e sal.

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Típico prato da culinária caipira, a Vaca Atolada deixa claro o porquê de seu nome à primeira vista: suculentos pedaços de costela bovina, com a carne descolando do osso, “atolados” em um molho espesso devido à mandioca que se dissolve em parte durante o preparo.

Vaca Atolada

A Vaca Atolada no início de seu preparo: costela bovina, mandioca e muito tempero

Mas há quem aponte outras origens para o prato. Ele teria sido criado por tropeiros que faziam o transporte de animais e mercadorias entre o Vale do Paraíba (região entre as cidades de São Paulo e Rio de Janeiro) e Minas Gerais. Nas épocas de chuva, os caminhos pela Serra da Mantiqueira viravam lamaçais e era comum o gado atolar, sendo necessário algumas vezes sacrificar algum animal. Uma das partes que não podia ser conservada na gordura ou no sal, as costelas eram então cozidas com mandiocas colhidas na região. Outra versão, menos romanceada, é de que o prato era feito para aproveitar a carne de uma vaca que atolava em um brejo e não resistia.

O Brejo surgiu da proposta do Ora Bolas Food Lab de resumir em bolinhas comidas típicas do Brasil e de outros países. Primeiro é preparada a Vaca Atolada, um processo que leva de quatro a cinco horas: duas para o tempero da carne, mais duas a três para a cocção de todos os ingredientes, em panela de barro. Depois, a carne é separada e desfiada, e novamente refogada, para rechear bolinhas feitas com a mandioca e molho do prato, uma a uma. Então os bolinhos são empanados e fritos. Assim a Vaca Atolada vai para o brejo, ora bolas!

Fonte: Wikipedia; Revista Safra

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Tropeiro

Tropeiro

Uma homenagem aos dois pratos típicos da safra de pinhão na serra catarinense que são herança do tempo dos tropeiros: a paçoca de pinhão e o entrevero. Acompanha molho picante de tomate com especiarias (Boi de Botas).

Ingredientes: frescal de carne bovina, linguiça campeira, pinhão, bacon, cebola roxa e branca, pimentão cambuci, tomate, páprica picante, pimenta vermelha, pimenta do reino, cenoura e manjerona.

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Nosso bolinho Tropeiro une elementos essenciais da história de minha terra natal, Lages, cidade localizada no planalto serrano catarinense. A base é o pinhão, semente da araucária, presente na cobertura e no recheio; a carne principal é o frescal, tipo de cura ao sereno; e os tropeiros conseguiram, além de juntar tudo isso, dar origem à cidade onde nasci e a muitas outras por onde passaram.

kaigang

Índios Kaigang. Foto: Acervo do Museu Histórico e Antropológico da Região do Contestado

O pinhão era um importante item da dieta do povo Kaingang, habitantes originários da região, praticamente dizimados por expedições de conquista promovidas pela Coroa Portuguesa e depois pelo governo imperial do Brasil – hoje, pouquíssimos resistem à grilagem. Eles coletavam a semente entre março e maio nas vastíssimas florestas de araucárias da época, e a consumiam assada diretamente na fogueira (sapecada). Para conservar essa importante fonte de nutrientes para os meses rigorosos de inverno, eles criaram diversas formas de conservação, como a farinha de pinhão e o õkór (pinhões colocados num cesto com tampa amarrado a um cipó dentro de um poço de rio), além de produzirem uma bebida fermentada.

Já o tropeirismo, importante ciclo econômico brasileiro que se inicia no século 17 e tem seu apogeu nos séculos 18 e 19, é intrínseco ao povoamento da Serra Geral. Várias cidades do interior do Rio Grande do Sul a São Paulo surgiram da movimentação de tropas de gado, cavalos e mulas que levavam charque, couro e outras mercadorias para o Sudeste, onde se desenvolvia fortemente a mineração, pelos chamados “Caminhos de Cima da Serra”.

Os Caminhos de Cima da Serra são um conjunto de rotas, muitas com traçados paralelos ou que se interligavam, abertas em busca de atalhos e como forma de escapar dos registros oficiais, que cobravam impostos pelo trânsito de animais e mercadorias. Ao longo desses percursos, nos pontos de pouso, foram nascendo pequenas povoações para atender às necessidades dos tropeiros, que por vezes precisavam esperar dias para que as chuvas cessassem e o nível dos rios permitisse a passagem da tropa. É o caso de Lages, fundada em 1766.

taipas

Muros de taipas, erguidos por escravos, delimitavam as propriedades e o caminho dos tropeiros. Foto retirada do livro Uma Usina no Contestado

Logo começaram a se formar pontos de invernada (pastagens destinadas ao descanso e à engorda de animais), e sesmarias passaram a ser concedidas, dando origem a extensas fazendas de criação de gado e cultivo de agricultura de subsistência. Elas eram também abrigo para os tropeiros e seus animais durante a travessia dos campos, em muitas partes por caminhos delineados por taipas (muros feitos com pedras). Ali descansavam e faziam negócios, e consequentemente ocorriam trocas culturais, inclusive em relação a hábitos alimentares.

Nessa interação, o pinhão passou a ser um importante alimento para caboclos (designação regional para a miscigenação de descendentes de portugueses e espanhóis, africanos e indígenas) e também para os tropeiros. Estes contribuíram para a culinária local com pratos de preparo fácil e rápido, entre eles o charque assado na brasa. Nas paradas mais longas, às vezes era carneada uma rês, e entre as partes que não eram utilizadas no churrasco algumas eram curadas à noite (e diz-se que embrulhadas em mantas e colocadas sob a barriga dos cavalos para que o suor dos animais salgasse a carne) para serem utilizadas nos dias seguintes. Este método de preservação foi adotado pelos fazendeiros – mas com a utilização de sal para a salga – e nos últimos anos vem sendo resgatado inclusive por grandes frigoríficos.

Pratos substanciosos e simples, porém saborosos, surgiram desses compartilhamentos, e hoje são ícones da gastronomia da Serra Geral catarinense. Um deles é a paçoca de pinhão, uma mistura da semente e de carnes moída (originalmente pilada) e refogada na cebola. Outro é o entrevero, que como o nome diz é uma verdadeira mistura de carne, linguiça, pinhão e vegetais grelhados em chapa de ferro.

Tropeiro

Tropeiro com vinho: perfeito para as noites frias  de outono

O Ora Bolas Food Lab apareceu e resolveu aumentar essa mistura, concentrando-a em um único bolinho, o Tropeiro. Uma paçoca preparada com frescal e pinhão formam a sua cobertura, e no recheio os principais ingredientes do entrevero. Como toque final, um molho grosso e picante à base de tomate e pimentão, batizado de Boi de Botas (termo que designa os lageanos que combateram ao lado dos Farrapos na tomada de Laguna, em 1839, por sua força e bravura). Esta é uma ótima opção para as noites frias de outono e inverno, e harmoniza muito bem com vinhos tintos produzidos nas vinícolas das terras altas de Santa Catarina.

Fontes:

Vanin, Alexsandro e outros. Uma Usina no Contestado. Fábrica de Comunicação, Santa Catarina, 2006.
Recco, Claudio. O Tropeirismo no Brasil – A Atividade dos Tropeiros no Brasil. Site historianet.com.br.
Wikipedia; www.portalkaingang.org; http://www.frigorificoelgolli.com.br; www.portallageano.com.br

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