Rote Grütze

Rote Grütze

Doce alemão precursor do nosso sagu, com frutas vermelhas e vinho tinto. Acompanha creme de baunilha

Ingredientes: sagu, morango, amora, mirtilo, framboesa,  vinho tinto, açúcar, canela e limão. Creme:  baunilha em fava, leite, ovo e açúcar.

Saiba mais…

Ainda hoje, na casa de meus pais, em Lages (SC), uma das sobremesas mais tradicionais de fim de semana é o sagu. Minha mãe prepara essas minúsculas bolinhas em calda de vinho tinto, sempre acompanhadas de um creme e suspiro, assim como fazia minha nonna, que por sua vez aprendeu com sua mãe, filha de imigrantes da Itália que se instalaram na serra gaúcha no final do século 19. E assim ocorre em centenas de famílias, com a receita passando por gerações, a ponto da sobremesa se tornar emblemática para as colônias italianas do Rio Grande do Sul e também de Santa Catarina.

Assim, cresci com a certeza de que, no que diz respeito a doce, nada mais italiano do que o sagu de vinho. Ledo engano, só desfeito há menos de dois anos, ao fazer uma reportagem sobre a culinária típica das colônias alemãs e italianas do Vale do Itajaí, em Santa Catarina. A descoberta se deu durante uma entrevista com Rene Jensen, proprietário do restaurante Abendbrothaus, de Blumenau, que abre somente aos domingos e possui em seu cardápio apenas um item: marreco recheado e seus tradicionais acompanhamentos – repolho roxo, chucrute, purê de maçã, purê de batatas, aipim frito, salada de batatas, arroz e língua ensopada. Tudo feito pela sua esposa, Josefa Jensen, que aos 9 anos aprendeu a receita com a sua oma, e que há 30 anos delicia seus clientes com este banquete. Depois dele discorrer sobre esta farta refeição, perguntei qual era a sobremesa, se também era típica, e a resposta foi: sim, é sagu. Na hora questionei Rene se essa não era uma receita italiana, e ele me disse não ter certeza, mas que a Josefa também tinha aprendido a fazer o doce com a avó.

rote grutzeNa verdade, a sobremesa típica das colônias italianas tem origem na guloseima alemã rote grütze – que também leva vinho tinto em sua preparação – e na adaptação de sua receita aos ingredientes locais, já utilizados pelos nativos da terra. Na falta de fécula de batata (utilizada para engrossar a calda), os descendentes de alemães Hans e Fritz Lorenz, netos do cientista alemão Fritz Müller, passaram a produzir no começo do século passado a fécula de mandioca que, processada, ganha o nome de sagu (referência à fécula extraída de plantas da Ásia conhecidas como saguzeiros). A interação comercial entre as colônias era cada vez mais intensa, e logo o doce caiu no gosto das famílias de imigrantes italianos, que excluíram da receita original as frutas vermelhas por não encontrá-las em sua nova terra. Um belo – e saboroso – exemplo de como a miscigenação cultural pode enriquecer nossos paladares.

PS: O Rote Grutze é tradicionalmente acompanhado pelo creme de baunilha (saiba mais sobre a fava de baunilha aqui)

Por Alexsandro Vanin, co-criador do Ora Bolas Food Lab

Fonte: Peccini, Rosana. Sagu de Vinho Tinto. http://www.historiadaalimentacao.ufpr.br; Wikipedia

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

w

Conectando a %s