Os Pistoleiros

dsc_0544Almôndegas de linguiça campeira com intrigante molho balsâmico de cebola.
Inspirado em receita de Jamie Oliver.

Ingredientes – Bolinho: linguiça mista de carnes suína e bovina, alecrim, noz-moscada, pimenta do reino, ovo caipira e farinha de trigo. Molho: cebola roxa, aceto balsâmico, caldo de legumes (abobrinha, cenoura, cebola, alho, manjericão, tomilho, alecrim, lavanda, sálvia, vinho branco, sal, azeite de oliva), louro, alecrim, noz-moscada, pimenta do reino, sal e farinha de trigo.

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Expedições que penetravam no interior do país caçaram e mataram indígenas, muitas vezes com a ajuda de traidores de seu povo. Pistoleiros perambulavam pela região, pilhando fazendas e vilas. Grupos de capangas defendiam os latifúndios, às vezes atacando outros. Tropas rebeldes avançavam por essas terras, confrontando-se com tropas oficiais, ambas requisitando – ou tomando à força – cavalos e mantimentos. Milícias eram formadas para defender empreendimentos exploratórios, como a madeireira Lumber, ligada ao investidor americano Percival Farqhar. E cidadãos também se juntavam em grupos armados para defender suas cidades. Já os habitantes mais pobres pouco tinham a fazer.

Jagunços

Bando de jagunços em demonstração de poder, animados por uma dupla de músicos. Foto retirada do livro Contestado

Tudo isso parece cenas de um filme de faroeste mas, na verdade, ocorreu na Serra Geral de Santa Catarina e nas terras a oeste dela, que viriam a ser palco da Guerra do Contestado, o mais violento e sangrento dos conflitos que assolaram a região, possivelmente um dos maiores do Brasil, entre 1912 e 1916.

O ataque aos indígenas começou com as bandeiras, no século 17, e perdurou até o século 19, com a atuação de tropas oficiais e de bugreiros. E foi nesse século que começou a se formar extensas fazendas – originadas das sesmarias concedidas na esteira do tropeirismo – e seus proprietários foram angariando poder econômico e, com a criação da Guarda Nacional, em 1831, também político e militar. Esses latifundiários ganharam o título de coronel e formaram guardas pessoais, que quanto mais numerosas, mais poder representava.

Dois grandes conflitos precederam o Contestado: a Revolução Farroupilha (1835-1845) e a Revolução Federalista (1893-1895), aos quais os coronéis da região aderiam conforme seus interesses políticos econômicos. Esses movimentos de guerra deixaram muitas pessoas sem raízes e que começaram a se agrupar sob a chefia de antigos líderes rebeldes, causando medo e instabilidade na região.

Muitos desses bandos de jagunços atuaram na Guerra do Contestado, evento de causas intrincadas: a disputas de terras entre os estados de Santa Catarina e Paraná; a rivalidade política entre os coronéis, verdadeiros grileiros de terras de caboclos; o desmantelamento social provocado pela Brazil Railway e a Southern Brazil Lumber and Colonization Company, empreendimentos autorizados a construir uma estrada de ferro e colonizar a área, mas que na verdade tinham como principal interesse extrair e exportar madeiras nobres, mesmo que para isso fosse preciso expulsar as famílias de caboclos que ali residiam. Para piorar, cerca de 8 mil trabalhadores de outras partes do Brasil foram simplesmente dispensados ao fim da construção da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande, e muitos se juntaram aos grupos de caboclos que perambulavam pela região. E, para completar, um toque de messianismo.

Os novos pistoleiros

Mas não são destes tristes episódios de nossa história que gostaríamos de falar. Os Pistoleiros também é o nome de um conjunto de música folk rock, para muitos o melhor desse gênero que apareceu no Brasil. Uma banda lendária, meio lageana, meio florianopolitana, com influências de Neil Young e do rock gaúcho, e porque não nativistas, formada por nossos amigos Diógenes Fischer (guitarra, violão e voz) e André Göcks (guitarra, violão e voz), ambos meus conterrâneos, Marco Túlio (acordeon e teclado), também meu compadre, Daniel (baixo) e Rodrigo (bateria).

Os Pistoleiros, a banda

Capa do primeiro e único disco da banda Os Pistoleiros

Criado em Florianópolis, nos fins dos anos 1990, o grupo lançou em 2000 o clássico álbum (Não Contavam Com) Os Pistoleiros. No mesmo ano, a banda encerrou as atividades, o que ajudou a criar o mito. A faixa título foi regravada em 2008 por Wander Wildner, em seu álbum Canción Inesperada (confira a versão neste vídeo no You Tube).

Uma das poucas reaparições de Os Pistoleiros – senão a única – ocorreu oito anos depois, em um evento promovido pelo jornalista Marquinhos Espíndola em parceria com a Célula, a Insecta Produções e o Clube da Luta. Nós, idealizadores do Ora Bolas Food Lab, temos a honra de possuir um exemplar do raro disco, e de ter assistido a este memorável show – aliás, o primeiro show que nossa filha Catarina ouviu, na barriga de oito meses da mãe, prestigiando seu futuro padrinho Marco Túlio. Você pode conferir a abertura da apresentação neste vídeo do You Tube.

O bolinho

Por levar linguiça campeira, tradicional dos campos de Lages, batizamos esse bolinho de Os Pistoleiros, em homenagem à região e principalmente à banda. O molho de cebola e aceto balsâmico (vinagre típico de Módena, na Itália) é baseado em uma receita do chef inglês Jamie Oliver. Para saboreá-lo, sugerimos acompanhar com um pãozinho crocante e um bom vinho ou cerveja, ouvindo o som de Os Pistoleiros.

Escrito por Alexsandro Vanin, co-criador do Ora Bolas Food Lab

Fontes: Vanin, Alexsandro e outros. Uma Usina no Contestado. Fábrica de Comunicação, Santa Catarina, 2006; blog Vamos curtir um barato; blog Mundo 47

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